segunda-feira, 29 de julho de 2013

Molotov e Água Benta

Papa no Brasil. Emoção e protestos nas ruas do Rio de Janeiro. Sandrinha sonhava conhecer o Pontífice. Saiu de casa ainda de madrugada. No centro da cidade, o clima estava quente. Gás lacrimogêneo e balas de borracha. Sandrinha ficou tonta. Sandrinha passou mal. Um PM borrifou gás de pimenta em seu rosto. O mundo queimou. Uma mão a agarrou e a tirou dali. Diante dela, entre borrões vermelhos, um rapaz de barba e cabelos rebeldes. Deixou-se levar até um terreno baldio. Preparou-se para agradecer e foi agarrada. Tentou resistir. Ele era mais forte. Colocou a mão entre suas pernas. Insinuou-se por baixo do vestido. Acariciou-a. Fez mal a ela ali mesmo. A trilha sonora: aplausos e vivas ao Papa, disparos das forças de segurança, bombas, gritaria, risos. O rapazola acabou o serviço e correu para algum lugar.

Sandrinha vagou pela cidade. Os olhos ardiam, as vergonhas queimavam. Na garganta, um nó. Alguém disse que o carro do Papa ficou preso na Presidente Vargas. Alguém disse que outro grupo de protestantes estava a caminho. O choque vem aí! Ela teve a ideia de se lançar ao mar.

Na praia, encontrou jovens missionários. Aproximou-se de um grupo de seis. Contou a eles seu desgosto. Ouviu palavras de conforto, falaram de Jesus, de Deus, do Papa, do universo. Ofereceram algo para comer e beber. Sandrinha estava feliz de novo. Queria dançar. A praia pareceu vermelha, depois azul, verde e de todas as cores. Pensou ter visto o Pontífice em meio às ondas. Ele andava sobre as águas e a chamava pelo nome. Acordou, não se sabe quando, sem roupas, sem pertences, sem nada senão fluídos pecaminosos ressecados em seu corpo. A cabeça pesava uma tonelada.

Juntou os trapos de dignidade e foi embora. Não se sabe como chegou em casa. Um mês depois, um teste de farmácia acusou: positivo. Vai se chamar Francisco, decidiu.


Por: Guinea Pig.

QUER GANHAR UM EXEMPLAR DE "AS MELHORES HISTÓRIAS DO CORROSIVO COLETIVO"? CLIQUE AQUI E SAIBA COMO.

Nenhum comentário:

Postar um comentário