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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Da Gênese à Revelação

Ciça e Cido eram irmãos inseparáveis. Faziam de tudo juntos, ir a escola, ao parquinho, a missa, à padaria. Eram chamados de Siameses. Aprontavam juntos, brincavam juntos e até saiam para festas, paquerar e conhecer o mundo. Ciça aos 15, passou a namorar Aurélio. Aos 16 Cido encontra Helena e se juntam. O primeiro amor floresce para os dois, a beleza da vida.

Helena era uma garota como outras. Tinha seus caprichos, desejos, gostos e libido. Normal? Sim normal. A natureza segue seu curso como Deus criou. Com Cido não seria diferente, e eles descobriram a vida juntos, num misto de parceria, amizade e atração.

Já Aurélio era diferente. Fiel à crença de seus pais, não deixava de ir ao culto todo sábado. Não comia carne, nem de animais, nem do desejo. Suprimia seus instintos em prol da vida eterna que teria depois de morrer, onde fluiria o leite, o mel. Normal, sim normal. A vida segue como Deus escreveu. Ciça era resistente de início, mas aos poucos cedia. Aos poucos aceitava. Por fim, defendia.

Cido e Ciça lentamente se distanciavam, e distância dói. Doía mais em Cido que em Ciça, pois para ela, o irmão era pecador, pagão e idolatra. Ela aprendera do pastor motivos para rechaçar o irmão. O irmão, ao contrário, ainda a amava como desde o ventre da mãe, não entendia a perseguição.

Cido e Helena se casaram, tiveram filhos. Viajaram pelo mundo, compraram casa, carro, criaram os filhos com liberdade e carinho. Mas Cido, de sofrer de falta da irmã, evoluiu uma gastrite em ulcera, e de ulcera a câncer. Padeceu aos 50, deixando o amor na família e filhos, a união dos descendentes, uma nora grávida de uma promessa de amor eterno pelas gerações.

Ciça e Aurélio se casaram. Tiveram filhos sem métodos anticonceptivos. Eliminaram os "do mundo" de sua convivência. Criaram seus filhos longe dos "do mundo". Tudo isso em nome do deus que seguiam e segundo a regra do pastor, seu enviado. Ciça viveu até os 70. Pode bradar, no púlpito da congregação, em alto e bom tom, que o irmão morrera como pecador aos 50, pois se priva a vida longa aos que não o acreditam. Morreu do mesmo câncer que o irmão, da mesma angustia de não tê-lo por perto: Ele não aceitou a Promessa.

A vida seguiu a quem ficou, que distante cada vez mais se colocavam, cada um a sua maneira de ver o mundo e o além. Na gênese da trajetória dos irmãos siameses, a revelação foi o fim de tudo.

Por Coronel Malaquias

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Contagem Regressiva

No primeiro ano, ele aprendeu o que era dar 2. No terceiro, dava de quatro, fazia fama. Experimentou a pedra de 5, não curtiu. É rápido. Fazia quadradinho de 8 na vila, noia e viado.

Conseguiu uma carga do pino de 10. Esperto, fez grana. Mas logo assinou um 12 e ficou esperto. Deixou de ser 13 e depois de 14 meses fechou com o 15 quando voltou pra boca.

Pegou um 16 de vacilo com o bofe. Deu sorte. No dia, a reportagem cortou pra 18 bem nele. Brilhou na tela do 19 UHF, a estrela!

Já tinha 20 quando regrediu pro 12 e foi em cana de novo. Nem tinha 22, fez fama de 24 no xadrez. Mulher do povo. Já viu viado traficante? Era ele. De guia no peito e tudo.

Saiu com 25, profissional. Aprendeu atirar com 38, .40, 45. Preferiu sair dos dois dígitos, achava pouco. Arrumou um esportivo, pagou com nota de 100. No ponteiro era só 120, 150.

Na Vida Loka fez 157, 171, colarinho foi o auge. Tinha quase 180 bocas comendo na mão, distribuindo. Da Bolívia, prefixo PT193, sobrevoava o Mato Grosso. Carga boa e barata. Crescia numa PG.

Viciado em pó, era ligado no 220v. Ao mesmo tempo, patrão e noia. Caiu de novo por vacilo, regrediu. Acharam a 365 que jogou no mato quando matou o dono de uma 250. No latrocínio era amador.

Tinha digital e lasca de esmalte. Passou de 72 horas, livrou do flagrante, sorte. Pegou 48 anos, da máxima de 30. Na paz, cumpriria 1/6 para o Habeas Corpus, caía para 5. Costurando bola, virava 3, moleza.

Agora, o que importava era sair de lá por cima, oxalá ser a bicha número 1 do crime.

por Coronel Malaquias