Naquela casa, a palavra de Deus imperava. Regivaldo não admitia palavrões, novelas ou músicas mundanas. Ungida, sua TV só
transmitia canais evangélicos, o mesmo se dava com o rádio. Leitura era a
Bíblia. Internet? Nem pensar. O www é o
meia-meia-meia, profetizava.
Naquela noite, foi um comichão no pé esquerdo que o despertou. Deu por falta da esposa. Na sala, Cristileide dormia esparramada no
sofá, em inocência pós-gozo. Na TV, homens e mulheres em plena ação. Garganta
profunda, duplas penetrações, gemidos, música lasciva. Pornografia das
brabas. Foi um caso sério. Colocou a mulher para fora de casa, aos gritos e
pontapés. Não admito, entendeu??
Cristileide vivia sozinha há uma semana quando recebeu um DVD sem identificação. Um filme de fetiches bizarros. Podolatria, spanking, coprofagia, BDSM, travestis, zoofilia, gang bang, creampie. E lá estava um Regivaldo, dez ou quinze anos mais jovem, a protagonizar todas as cenas. Cristileide dormiu em choque. No dia seguinte, recebeu uma ligação. Um homem identificado como M.Bastos, empresário de entretenimento adulto, perguntava se ela havia recebido o DVD. Seu marido era um grande talento do pornô. Era o Buttman de nossa região, explicou.
Envenenada pela humilhação, tramou sua vingança. Hipócrita, vomitava. Um mês depois, foi a vez de Regivaldo
receber um DVD. Rodeada por homens, mulheres e
animais, a ex-mulher “interpretava” do Gênesis ao Apocalipse. Escatologia na travessia do Mar
Vermelho, bestialismo na Arca de Noé, sêmen ao invés de maná. Cristileide estrelava uma coletânea de
abominações. Sou eu a prostituta da
Babilônia, repetia para as câmeras.
Quando o DVD chegou ao fim, todos os cabelos de Regivaldo eram brancos. Nunca mais foi à igreja. Sua fé estava pervertida para sempre.
Por: Voltaire de Abreu
