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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Buttman

Naquela casa, a palavra de Deus imperava. Regivaldo não admitia palavrões, novelas ou músicas mundanas. Ungida, sua TV só transmitia canais evangélicos, o mesmo se dava com o rádio. Leitura era a Bíblia. Internet? Nem pensar. O www é o meia-meia-meia, profetizava.

Naquela noite, foi um comichão no pé esquerdo que o despertou. Deu por falta da esposa. Na sala, Cristileide dormia esparramada no sofá, em inocência pós-gozo. Na TV, homens e mulheres em plena ação. Garganta profunda, duplas penetrações, gemidos, música lasciva. Pornografia das brabas. Foi um caso sério. Colocou a mulher para fora de casa, aos gritos e pontapés. Não admito, entendeu?? 

Cristileide vivia sozinha há uma semana quando recebeu um DVD sem identificação. Um filme de fetiches bizarros. Podolatria, spanking, coprofagia, BDSM, travestis, zoofilia, gang bang, creampie. E lá estava um Regivaldo, dez ou quinze anos mais jovem, a protagonizar todas as cenas. Cristileide dormiu em choque. No dia seguinte, recebeu uma ligação. Um homem identificado como M.Bastos, empresário de entretenimento adulto, perguntava se ela havia recebido o DVD. Seu marido era um grande talento do pornô. Era o Buttman de nossa região, explicou.

Envenenada pela humilhação, tramou sua vingança. Hipócrita, vomitava. Um mês depois, foi a vez de Regivaldo receber um DVD. Rodeada por homens, mulheres e animais, a ex-mulher “interpretava” do Gênesis ao Apocalipse. Escatologia na travessia do Mar Vermelho, bestialismo na Arca de Noé, sêmen ao invés de maná. Cristileide estrelava uma coletânea de abominações. Sou eu a prostituta da Babilônia, repetia para as câmeras.

Quando o DVD chegou ao fim, todos os cabelos de Regivaldo eram brancos. Nunca mais foi à igreja. Sua fé estava pervertida para sempre.

Por: Voltaire de Abreu

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

"Trabalho de lavar copos"

A vida não foi boa com Jovanilda. Da infância pobre no Acre à brutalidade da periferia de São Paulo, a mulher carregava cicatrizes na pele e na alma. Já na metade dos 50, o marido a colocou para correr do barraco. Sem eira nem beira, sem parentes a quem recorrer, bateu na porta de uma casa de mulheres de aluguel. Teve humildade para especificar o que oferecia. Trabalho de lavar copos.

Em meio às beldades, foi aquela senhora simples que chamou a atenção do Português: patrão do tráfico, fechado com o 15, homem de modos violentos e fetiches sádicos.

Todos os dias, esquecia a chimbada e dedicava-se a escutar as histórias, entre um enxágue e outro. Com a espuma dos copos, Jovanilda esvaziava o coração: abusos, abortos, amores. O Português gamou. Àquela mulher fazia propostas irrecusáveis: dinheiro, jóias, o mundo. Jovanilda era irredutível.Não faço programa, só trabalho de lavar copos.    

Tamanha atenção despertou ciúmes nas meninas da casa. O que ele vê naquela velha podre? Algumas questionavam as razões da recusa, já que o dinheiro não era de se desprezar. Vai lá, boba, uma vez só. Jô refutava. Repetia que sua função era lavar copos e nada mais.
  
Um dia, caiu numa peça cruel. Atraída a um dos quartos, foi imobilizada e amarrada pelas meninas. Deixaram-na nua, expondo totalmente aquela pele com cor e textura de casca de árvore. Chamaram o Português que, sem titubear, realizou sua fantasia. No fim, deixou dinheiro para Jovanilda e uma “caixinha” para as cúmplices. Para de chorar, tonta, olha quanto dinheiro ele te deu...

A velha não disse palavra. Ainda nua, foi até o balcão onde apanhou um copo longo e elegante. Quebrou-o em um golpe e, com o caco, fez um corte na própria jugular. O sangue lavou a honra de Jovanilda.

Por: Voltaire de Abreu