Ciça e Cido eram irmãos inseparáveis. Faziam de tudo juntos, ir a escola, ao parquinho, a missa, à padaria. Eram chamados de Siameses. Aprontavam juntos, brincavam juntos e até saiam para festas, paquerar e conhecer o mundo. Ciça aos 15, passou a namorar Aurélio. Aos 16 Cido encontra Helena e se juntam. O primeiro amor floresce para os dois, a beleza da vida.
Helena era uma garota como outras. Tinha seus caprichos, desejos, gostos e libido. Normal? Sim normal. A natureza segue seu curso como Deus criou. Com Cido não seria diferente, e eles descobriram a vida juntos, num misto de parceria, amizade e atração.
Já Aurélio era diferente. Fiel à crença de seus pais, não deixava de ir ao culto todo sábado. Não comia carne, nem de animais, nem do desejo. Suprimia seus instintos em prol da vida eterna que teria depois de morrer, onde fluiria o leite, o mel. Normal, sim normal. A vida segue como Deus escreveu. Ciça era resistente de início, mas aos poucos cedia. Aos poucos aceitava. Por fim, defendia.
Cido e Ciça lentamente se distanciavam, e distância dói. Doía mais em Cido que em Ciça, pois para ela, o irmão era pecador, pagão e idolatra. Ela aprendera do pastor motivos para rechaçar o irmão. O irmão, ao contrário, ainda a amava como desde o ventre da mãe, não entendia a perseguição.
Cido e Helena se casaram, tiveram filhos. Viajaram pelo mundo, compraram casa, carro, criaram os filhos com liberdade e carinho. Mas Cido, de sofrer de falta da irmã, evoluiu uma gastrite em ulcera, e de ulcera a câncer. Padeceu aos 50, deixando o amor na família e filhos, a união dos descendentes, uma nora grávida de uma promessa de amor eterno pelas gerações.
Ciça e Aurélio se casaram. Tiveram filhos sem métodos anticonceptivos. Eliminaram os "do mundo" de sua convivência. Criaram seus filhos longe dos "do mundo". Tudo isso em nome do deus que seguiam e segundo a regra do pastor, seu enviado. Ciça viveu até os 70. Pode bradar, no púlpito da congregação, em alto e bom tom, que o irmão morrera como pecador aos 50, pois se priva a vida longa aos que não o acreditam. Morreu do mesmo câncer que o irmão, da mesma angustia de não tê-lo por perto: Ele não aceitou a Promessa.
A vida seguiu a quem ficou, que distante cada vez mais se colocavam, cada um a sua maneira de ver o mundo e o além. Na gênese da trajetória dos irmãos siameses, a revelação foi o fim de tudo.
Por Coronel Malaquias
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Da Gênese à Revelação
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Dos Jardins do Éden ao Inferno - Parte 2
Levaram-me, encapuzado, a um lugar que desconhecia a existência, mas fedia esgoto e mirava cortiços.Carros e motos velhas, muito mato e terra no chão. Que nojo!
Via o preto que me rendera acariciar uma mulher. Me enojara aquelas peles marrons trocando carícias, mas me surtiu uma ponta de inveja. Há anos não trocava carícias tão sinceras quanto aquelas que via. Percebi que ninguém me amava, apesar de eu ter dinheiro.
Veio também uma criança, o preto a abraçou, beijou. Percebi que não era cativeiro profissional (se é que isso existe), mas uma residencia, possivelmente deles. Uma casa suja. A mulher implorou para que deixasse aquilo e me libertasse. Surpreso, pensei: "Ela, tendo misericórdia de mim?" Minha ponta de inveja passou, nunca deixaria alguém do baixo limbo sentir pena de mim. Solto mataria os três, Victoria e o outro comparsa que não mais vi. Canalhas!
Eram meus minutos finais, pressentia. Um cano de grosso calibre e cheirando pólvora pairava perto de minha boca pedindo grana. Me lembrava da infância e juventude, onde canos de calibres semelhantes jorravam em mim com cheiro de meus segredos de prazer. Ahh Armandinho...lembrei de tuas carícia, onde andas? Lembrei das caricias do preto na mulher e na criança. Lembrei da orgia que imaginei quando eles abriram a porta do flat...
Olhei para o lado, vi uma moto com baú. Maldito motoboy! Me arrependo da capacidade de pensar.
Ele me pressionou em vão. Chamei aquele preto de preto, de favelado. Disse que não tinha grana, que estava falido. Era minha última verdade. Verdade rara. Ele apertou o gatilho três vezes com brados: "Playboy filho da puta, te soltaria por uma nota de cinco, mas não perdoo injuria!". Vejo meu corpo estirado no chão, sangue jorra. A mulher chorando com a criança, desespero. O homem fugindo, sofrimento e dor. Eu apenas rio, que se fodam!
Nasci nos Jardins, cresci no Éden. Comi do maná da sabedoria e tive de escolher entre bem e mal. Optei pelo conveniente. Agora, uma capa vermelha, chifres. O grande arquiteto a me conduzir para a fogueira. Será que reencontrarei amigos? Ao menos isso, amém.
por Coronel Malaquias
Via o preto que me rendera acariciar uma mulher. Me enojara aquelas peles marrons trocando carícias, mas me surtiu uma ponta de inveja. Há anos não trocava carícias tão sinceras quanto aquelas que via. Percebi que ninguém me amava, apesar de eu ter dinheiro.
Veio também uma criança, o preto a abraçou, beijou. Percebi que não era cativeiro profissional (se é que isso existe), mas uma residencia, possivelmente deles. Uma casa suja. A mulher implorou para que deixasse aquilo e me libertasse. Surpreso, pensei: "Ela, tendo misericórdia de mim?" Minha ponta de inveja passou, nunca deixaria alguém do baixo limbo sentir pena de mim. Solto mataria os três, Victoria e o outro comparsa que não mais vi. Canalhas!
Eram meus minutos finais, pressentia. Um cano de grosso calibre e cheirando pólvora pairava perto de minha boca pedindo grana. Me lembrava da infância e juventude, onde canos de calibres semelhantes jorravam em mim com cheiro de meus segredos de prazer. Ahh Armandinho...lembrei de tuas carícia, onde andas? Lembrei das caricias do preto na mulher e na criança. Lembrei da orgia que imaginei quando eles abriram a porta do flat...
Olhei para o lado, vi uma moto com baú. Maldito motoboy! Me arrependo da capacidade de pensar.
Ele me pressionou em vão. Chamei aquele preto de preto, de favelado. Disse que não tinha grana, que estava falido. Era minha última verdade. Verdade rara. Ele apertou o gatilho três vezes com brados: "Playboy filho da puta, te soltaria por uma nota de cinco, mas não perdoo injuria!". Vejo meu corpo estirado no chão, sangue jorra. A mulher chorando com a criança, desespero. O homem fugindo, sofrimento e dor. Eu apenas rio, que se fodam!
Nasci nos Jardins, cresci no Éden. Comi do maná da sabedoria e tive de escolher entre bem e mal. Optei pelo conveniente. Agora, uma capa vermelha, chifres. O grande arquiteto a me conduzir para a fogueira. Será que reencontrarei amigos? Ao menos isso, amém.
por Coronel Malaquias
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