segunda-feira, 30 de julho de 2012

Aceita coração?


Para qualquer um pode parecer estranho, mas uma churrascaria tem a mesma dinâmica que uma empresa. Os garçons fazem parte de uma estrutura hierárquica, quem serve a linguiça, por exemplo, tem o mesmo valor de um estagiário, depois disso, o garçom evolui para “analista”, servindo peito de frango e coração. O último estágio, onde o garçom recebe o melhor ordenado, é o mais almejado de todos, e é o espeto de picanha.

É nesta realidade em que estava inserido Maicosuel Aparecido, nascido e criado no interior da Paraíba e que veio para a terra da garoa tentar a sorte grande. De pequeno trabalhou como engraxate, padeiro, confeiteiro, vendedor de sapatos e enchedor de chouriço, mas nada disso garantiu um bom tutu no bolso.

Benê era dono da churrascaria Beneditu´s Grill, localizada em São Paulo, mais precisamente na Lapa de Baixo. Com preço convidativo de R$ 14,90, o restaurante era recheado pelo povão que adora mastigar qualquer coisa barata e salgada. Benê tinha bom coração, e ofereceu um serviço para Maicosuel, recém-chegado da terrinha e desempregado há tempos.

Maicosuel começou de baixo, ficou quatro meses servindo linguiça. Aprendeu a cortar aperitivo, tirar a linguiça em pares do espeto e distinguir a picante da tradicional só de olhar.

Mas o que deixava nosso herói paraibano arretado era o Miguel dos Pampas. Gaúcho até na opção sexual, Miguel era um sujeito fino, de bons modos e boas vestes. Loiro, alto e com as mãos finas, Miguel estava no cargo de servedor de picanha há anos.

O galego fazia questão de mostrar os brancos dentes aos clientes e cortava a picanha bem fininho, do jeito que o brasileiro gosta. É claro que isso rendia bons trocados e um ordenado gordo no fim do mês.

Um dia serei o garçom da picanha. Servirei picanha ao alho, picanha suína e até picanha maturada, sonhava longe, Maicosuel.

Numa manhã, na cozinha, as mãos do destino prepararam um encontro especial. Faltava pouco para o restaurante abrir para os fregueses, e Maicosuel e Miguel dos Pampas foram os primeiros a chegar. Os primeiros e únicos funcionários.

- Bá, chegou cedo pra servir lingüiça, hein Maicosuel! – Gozava o exímio cortador de picanha.

- Não me irrita não, galego bicha. – Retrucava o valente paraibano.

- Bá, tu serve teu coração e tua linguiça e fica quieto viu, é só o que tu sabe fazer. Um dia será como eu, mas vai demorar a valer. – Reafirmava a gozação o rapaz dos Pampas.

E o que era um simples bate-boca virou, num instante, uma cena de filme de terror. Facas, machadinhas e martelos de carne para todos os lados. Sangue no teto, nas paredes, no chão e até no relógio de ponto, preso na parede do fundo da cozinha.

Maicosuel abriu Miguel dos Pampas como se cortasse um boi. Alcançou o espeto de churrasco, furou o coração, ainda pulsante e, puxando com força, arrancou todas as tripas do gaúcho (acredita-se que um ser humano adulto tem aproximadamente 1,5 metros de tripa).

Limpou um pouco do sangue da roupa, lavou o rosto e andou triunfante em direção ao salão do restaurante.

Pela primeira vez sentia um prazer inigualável em servir coração e linguiça.

Por: Bispo F.

2 comentários:

  1. Dou um trampo de garsom e é assim mesmo. Parabens.

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  2. Sou empresário do ramo das churrascarias e nunca fui tão ultrajado como nesse texto.Me aguardem!!!!

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