sexta-feira, 9 de agosto de 2013

"Trabalho de lavar copos"

A vida não foi boa com Jovanilda. Da infância pobre no Acre à brutalidade da periferia de São Paulo, a mulher carregava cicatrizes na pele e na alma. Já na metade dos 50, o marido a colocou para correr do barraco. Sem eira nem beira, sem parentes a quem recorrer, bateu na porta de uma casa de mulheres de aluguel. Teve humildade para especificar o que oferecia. Trabalho de lavar copos.

Em meio às beldades, foi aquela senhora simples que chamou a atenção do Português: patrão do tráfico, fechado com o 15, homem de modos violentos e fetiches sádicos.

Todos os dias, esquecia a chimbada e dedicava-se a escutar as histórias, entre um enxágue e outro. Com a espuma dos copos, Jovanilda esvaziava o coração: abusos, abortos, amores. O Português gamou. Àquela mulher fazia propostas irrecusáveis: dinheiro, jóias, o mundo. Jovanilda era irredutível.Não faço programa, só trabalho de lavar copos.    

Tamanha atenção despertou ciúmes nas meninas da casa. O que ele vê naquela velha podre? Algumas questionavam as razões da recusa, já que o dinheiro não era de se desprezar. Vai lá, boba, uma vez só. Jô refutava. Repetia que sua função era lavar copos e nada mais.
  
Um dia, caiu numa peça cruel. Atraída a um dos quartos, foi imobilizada e amarrada pelas meninas. Deixaram-na nua, expondo totalmente aquela pele com cor e textura de casca de árvore. Chamaram o Português que, sem titubear, realizou sua fantasia. No fim, deixou dinheiro para Jovanilda e uma “caixinha” para as cúmplices. Para de chorar, tonta, olha quanto dinheiro ele te deu...

A velha não disse palavra. Ainda nua, foi até o balcão onde apanhou um copo longo e elegante. Quebrou-o em um golpe e, com o caco, fez um corte na própria jugular. O sangue lavou a honra de Jovanilda.

Por: Voltaire de Abreu

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