sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Incesto Segundo Descimo

Década de 50. Rua das Rosas, Santa Maria-RS. Filha de uma camareira, dona Celeste, e um caixeiro de passagem. Foi criada sozinha pela mãe: O pai deixou as representações na cidade, após saber da gravidez. Sabia apenas que o nome dele era Mateus.

Loirinha de olhos verdes, pele claríssima e semblante inocente, atributos que até a adolescência mantiveram-se intactos em Valquíria. Obviamente, despertava atração dos garotos desde os primeiros anos escolares, quando a inocência não a permitia perceber seus dotes angelicais.

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Década de 70. Hotel Atlântida, Av. São João, São Paulo. Um hóspede habitué do estabelecimento aluga por três dias um quarto.  Seus negócios pediam para ele viajar. E a liberdade o atraía. Neto de fazendeiros mineiros, foi para Belo Horizonte e se fez sozinho, rico e livre da enxada. Mas, como todo homem, também tem seus defeitos.

Liberdade para ele era sinônimo de libertinagem. Quando jovem, conquistava as moças pela beleza e romantismo. Agora, velho e caído,  precisa pagar por serviços particulares. Zezinho, Barman do hotel, foi quem fez a ligação e marcou. Em minutos, Déscimo foi buscar a garota na porta do Amigo Leal, bar do qual era também cliente de longos goles. Jantou com ela e, no papo, descobriu afinidades de gostos, paladares.

Fizeram sexo e conversaram. Fazendo sexo de novo e conversando. Pareciam se conhecer a anos...

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Um absurdo para os anos 50 era uma mãe solteira. Ainda mais numa cidade interiorana. A filha então, sem moral. Nunca recebera o respeito de seus conterrâneos, principalmente os homens. Sabe como é: filha bastarda é de ninguém. Se é de ninguém, é minha também.

Carência de figura masculina, marginalização por sua condição, a beleza de nascença e a oportunidade com os homens fizeram com que ela descobrisse o prazer aos 13. A bebida aos 14 e o aborto aos 15. Aos 16 passou a ganhar dinheiro fácil. Aos 19...

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Déscimo tinha a vida completa. Riqueza, família, prazeres e até um neto. Queria viver a vida numa boa, sem preocupações. Não se arrependia de nada. A família o amava por dar conforto e carinho quando presente. Os amigos o adoravam pelas histórias de viagem, as piadas. A empresa não o demitia porque a rescisão custava caro e ele até que vendia bem. Vivia. E como vivia!

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No saguão do hotel se ouve um tiro. Depois outro e mais outro. No quarto tiro, os funcionários estavam desesperados. A policia chegou em instantes com o IML e a Imprensa. No dia seguinte a foto na capa do NP mostrava duas mãos ensanguentadas. Na mão dele um RG com o nome Valquíria, filha de Celeste. Na mão dela, outro RG o nome Mateus Déscimo, sem registro de pai. Na manchete, letras garrafais: Incesto Segundo Déscimo, na quarta bala se matou.


por Coronel Malaquias

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