quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Arte Esotérica do Escarro


Era 7 de setembro, feriado, e eu entrevado na minha cama. Alguns doutores diziam que era pneumonia, outros que se tratava de uma infecção mais grave. Tentei de tudo, desde homeopatia a drogas mais pesadas. Eu tinha alguns gatos dentro do peito.

Fui ao banheiro, a minha casa do cocô é pequena, tem infiltração no teto e os azulejos estão soltos, alguns ainda dependurados no rejunte. Aí enchi os pulmões, inflei meus alvéolos e escarrei no vaso. Junto com o marrom, amarelo, verde e sangue, se misturou minha preocupação. Há quantas andava minha saúde?

Num anúncio de jornal achei um doutor místico. Leio sua sorte no seu escarro. Tratar com Pai Brogotá. Metrô Tatuapé.

Não relutei, coloquei minhas chinelas, minha casaca, apanhei os trocados da condução e fui encontrar o senhor de todos os sortilégios. Grande foi a surpresa quando me deparei com o endereço: um predinho comercial, normal como todos os outros, nos cafundós do Tatuapé.

Anunciei ao porteiro minha chegada e subi. Toquei a campainha.

- Bom dia, amigo. Sejamos rápidos. Por favor, catarre nesta bacia de prata. – Ordenou o velho bruxo, envolto numa capa brilhante.

Escarrei forte. Acho que foi quase um litro, dessa vez a quantidade de sangue foi bem maior. Senti que ele estava quente e viscoso. Acabei engolindo a quantidade final, que não saiu por inteiro da garganta.

Com olhos esbugalhados, o feiticeiro analisou, refletiu, meditou e anunciou:
- Teus pulmões estão limpos, isso é uma pequena gripe. Mas seu catarro me mostra muita coisa: seu irmão irá sofrer um acidente, sua mãe ficará doente este ano e sua esposa está enfeitando sua cabeça. Cuidado!

Saí preocupado. Para a gripe levei uma garrafada – infusão de ervas e mel colocada numa garrafa de vidro – e para os infortúnios recebi algumas orações.

Curei-me da gripe, mas as orações não fizeram efeito. As desgraças apareceram, e me separei. Resolvi, então, investir no estudo esotérico do catarro. Comprei livros, fui à Índia e conheci muitos especialistas no tema. Passei a analisar espiritualmente todas as nuances tanto de uma cusparada, como de um bom catarro de gripe.

Descobri que os tons de verde refletem o lado material do indivíduo; os amarelos o lado sentimental; e os marrons as rusgas que possuímos. O vermelho é a vida, e a maneira pela qual estamos conduzindo o dia-a-dia.

Curado das doenças e agora perito na Arte Esotérica do Escarro, fui a um bar para tomar um conhaque e espairecer a cabeça. Me encantei com uma doçura loira, encostada no balcão do botequim. De cabelos compridos, lisos, se arrebitava para exibir as grandes cadeiras aos presentes.

Fiquei ereto na hora. Na verdade, há tempos, nunca tinha sentido tanto prazer e vontades ao ver um pedaço de mau caminho na minha frente. Não tardou para conversarmos, paguei alguns drinques para a ninfeta de cabelos dourados, falamos amenidades.

Minhas vontades cresceram ainda mais, assim como o volume da minha calça. O papo evoluiu, fechei a conta e fomos para minha casa.

Depois de diversas doses, e com as vergonhas adormecidas, resolvi contar para Patrícia minhas habilidades esotéricas. Ao contrário do que se pensa, ela não ficou com nojo da história. Em verdade, até prometeu ir ao banheiro e escarrar para que eu analisasse.

Com a voz baixa e olhar sedutor, ela anunciou:
- Vou lá dentro e já volto, querido.

E retornou instantes depois, sem nada. Como veio ao mundo. Seus seios eram grandes, com os bicos roseados; a cintura pequena; e a vagina depilada, lisa como uma fórmica.

- Gostou de mim? Agora vou escarrar pra você analisar... depois que você ler meu futuro, faremos amor como você nunca fez.

Nem consegui retrucar, tentei dizer algo, ela encheu os peitos – e que peitos – curvou as costas para trás, fungou o nariz, trouxe o catarro para a garganta, tossiu um bocado e escarrou. Ali, no chão mesmo. Limpou a boca com o braço e me perguntou:
- E aí, o que você vê, meu amor?

Fiquei boquiaberto. Meu pinto desceu.

- Vejo que você é uma porca, uma imunda, sem eira nem beira. Uma regateira, sem higiene e sem princípios. Viu o que você fez com o assoalho novinho do meu quarto? É de taco, troquei na semana passada. Além do mais, você acha que é assim? Chega e cospe, sem mais nem menos? Não me preparei espiritualmente, não fiz meus chamados aos meus guias. Tá achando que minha casa é igual campo de futebol? Você chega e dá uma cusparada no chão?

Toquei ela do apartamento, sem roupa, sem nada.

Agora sozinho, eu e o escarro, consegui me inspirar e analisar. Ele tinha muitos tons amarelos e pequenas nuances verdes. Algumas pintas vermelhas, bem pequenas, também estavam presentes.

Vi um trágico acidente de carro. Fiquei feliz, aquela porca teria um final merecido.

Por: Reverendo Lezzagon

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