sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O Consultor Financeiro


Aquele era um unha de fome. Só andava de ônibus, não usava celular ou telefone de qualquer espécie, comprava roupas de frio no verão e roupas de inverno nos dias de calor senegalesco. Após anos vivendo de tal maneira, não deu outra: acumulou riqueza. Com dinheiro no bolso, continuou austero. Comprou imóvel para a família e só. O resto aplicou. Parou de trabalhar e passou a viver dos rendimentos. Sem grandes luxos, como era de seu costume.

Logo, a fama do "Mago das Finanças" correu o bairro. Todos queriam saber qual era o segredo. Ele desconversava, dizia que bastava ter o pé no chão. Mas amigos e conhecidos o assediavam. Queriam ajuda para pagar as prestações e, de quebra, fazer um capital. Um belo dia, ele anunciou: "Cada um de vocês me deem R$ 200 todo mês. Em dez anos, eu os transformarei em pessoas ricas".
E assim foi.Mensalmente, ele divulgava relatórios sobre os fundos e produtos financeiros adquiridos com a bufunfa da rapaziada. No bairro, o povo sonhava e já planejava a compra de iates, mansões, coberturas, automóveis, amores.

Quem logo se mostrou bem sucedida foi a Dagmar, loirinha ordinária, de traseiro à la Serpieri, que flanava por ali. Primeiro, foi um iPhone, depois um cachorrinho desses de madame, em seguida, vieram roupas, jóias, carros de luxo e - pasmem - um palacete digno de novela. Em um ano já não saia de casa sem seguranças.

Tamanha ostentação animou o povo que, imaginando que os investimentos já frutificavam em rendimentos, foi até o "Mago das Finanças" solicitar a parte que lhe cabia. Calmamente, ele explicou-lhes que não era possível, pois os dez anos ainda não haviam se passado, que o dinheiro deles nem sequer começara a render tanto assim. Questionaram, então, a vida de luxo adotada por Dagmar Ele pigarreou, sorriu sem graça e explicou que a tesa lourinha não fazia parte do Clube de Investimentos. "Se ela gasta à rodo, com certeza deve ter outra fonte de renda", apaziguou. Os vizinhos fizeram "nhééé", desanimados, e voltaram para suas casas.

Na manhã seguinte, o bairro acordou com a notícia estampada em prantos: o Consultor Financeiro, o Mago das Finanças, estava morto. Dera um tiro na boca durante a madrugada. Comoção geral na comunidade. Em respeito aos familiares, não tocaram no assunto "dinheiro" até terminar o enterro. Mas, no outro dia, quando foram resgatar suas aplicações, descobriram que estavam à míngua, quebrados, sem um único tostão. O Mago das Finanças aplicara tudo num fundo perdido. Aplicara na bela poupança de Dagmar.

Por: Voltaire de Abreu

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