quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Marceneiro de coração

Neneco tinha nascido em família podre, não tinha feito faculdade, somente freqüentado a escola da vida. No alto de seus 45 anos, trabalhava no pequeno mercado da cidade, bem próximo de sua casa. Sem condições materiais, seus pais jamais puderam dar um brinquedo a Neneco. Mas o destino não é de todo cruel assim, foi a partir daí que o garoto começou a se interessar por marcenaria. Aprendeu com seu Olavo, velho profissional do vilarejo, as manhas da profissão.
Fazia seus próprios peões, carrinhos de brinquedo, espadas e afins. Era uma criança feliz, felicidade essa, construída pelas próprias mãos.
- Quando crescer, serei um marceneiro profissional, vocês vão ver! – Gritava Neneco aos seus amigos, enquanto corria com seu carrinho de rolimã.
Pena que o futuro não foi tão generoso assim. Neneco comeu muita mulher, fez filho e se amigou com uma qualquer. Tinha que bancar a casa, os caprichos da esposa. E ficou frustrado. Não podia sair do mercadinho para tentar a sorte na marcenaria. Afinal de contas, o trabalho de balconista rendia um ordenado bom no fim do mês.
- Ainda vou ser marceneiro! – Falava mais de centena de vezes, por dia, aos seus colegas de trabalho e fregueses.
Nasceu mais um filho. E outro. E outro. Neneco comprou carro, fez dívida. A cada dia se amarrava mais na triste ocupação de balconista e se distanciava mais da feliz profissão de marceneiro.
Neneco não apareceu para trabalhar. O encarregado do mercado resolveu ir à sua casa.
Entrou, pela porta entreaberta, e viu uma cena dantesca no meio da sala: um caixão de madeira rústica, caprichosamente entalhado com motivos de flores e uma grande cruz gravada no centro. Dentro dele, Neneco morto, e um bilhete
“Aqui jaz um grande marceneiro e sua última obra”.
Por: Reverendo Lezzagon

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