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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Casa da Sogra

Alice sempre foi moça certa. De religião cristã e primeira de quatro filhos, casou-se aos dezessete com Genivaldo, seu primeiro namorado. Finda a festança, foram morar com Dona Euclídia, a mãe de Genivaldo, até que a casa que construíam estivesse pronta. Dona Euclídia, aos 38 anos, fora casada com Manolo, um português que morrera quando Genivaldo ainda era criança, numa orgia regada a uísque e cocaína.

O primeiro ano de convivência com a sogra foi o pior da vida da moça. Sistemática, autoritária, cínica e intrometida, Dona Euclídia tinha de jovial o que tinha de difícil: botava defeito em tudo, da forma como Alice lavava a roupa do marido à mistura do almoço. Certo dia, deu para implicar com as roupas da nora que, segundo ela, eram muito curtas. Genivaldo interveio, provando por a+b que as vestimentas de Alice, um vestido de viscose para baixo dos joelhos e um casaquinho de lã, estavam perfeitamente adequados para uma moça casada.

Numa manhã de sábado, enquanto estendia os lençóis no varal, Alice ouviu alguém bater palmas no portão. Correu para lá, mas encontrou apenas um envelope com seu nome, cujo conteúdo era uma folha de caderno com os seguintes dizeres, escritos à caneta: “Rua das Maritacas, 456, 22h30, hoje. Saberás quem é o teu marido”. Engoliu em seco, amassou o bilhete e angustiou-se. Pensava em quem poderia estar fazendo aquilo. Seria uma piada? Um golpe? Pelo sim, pelo não, no entanto, apareceu no local indicado às 22h25, bem em tempo de ver Genivaldo entrando todo serelepe no que descobriu ser uma casa de swing.

Já furiosa com toda a situação, Alice entrou atrás do marido e deparou-se com um ambiente dançante e escuro. Seguiu para uma escada cheia de espelhos que a conduziu a um corredor repleto de portas, sofás, janelas e pessoas. Pessoas seminuas, nuas, algumas quase do avesso. Ficou paralisada observando uma loira de seios avantajados sendo enrabada por um mulato, enquanto chupava o pau de um rapaz alto e de feições juvenis. Não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo bem ali, na frente de toda aquela gente. Olhou para os lados e viu mais três homens contemplando a cena, dois já abaixando as calças, não sabia se para se para se tocar ou participar do come-come. Mais do que depressa, apesar da sensação de irrealidade, Alice percorreu alguns metros entre pessoas se beijando e seios de fora, até avistar Genivaldo. Refestelado num sofá, o rapaz permanecia de olhos fechados enquanto uma morena acima do peso lambia-lhe as bolas. A esposa traída já estava para voar sobre os cabelos da morena, quando sentiu braços fortes segurando-a. O rapaz alto terminara com a loira e encostou Alice na parede, com a bunda dela encaixada nele. Alice quis gritar, mas dopada de ódio, surpresa e um repentino desejo de revide, deixou-se apertar, enquanto outro par de mãos erguia-lhe a saia. “Falei que era curta demais...”, disse uma voz suave vinda da mulher que beijava suas coxas. “Dona Euclídia! Mas o quê...?” Não teve tempo de terminar a frase, o rapaz alto deitou-a num sofá-cama, arrancou-lhe a calcinha de algodão e segurou seus braços finos, enquanto Dona Euclídia, num vestidinho laranja colado que deixava ver todos os pelos da vulva, chupava-lhe o grelo. Usou a língua, os lábios, os dedos, dois consolos enormes. Alice contorcia-se de prazer e gozou duas vezes enquanto a sogra acariciava seus pequenos seios e o rapaz alto fazia as vezes por trás. Deixou a casa às 2h, trôpega, todos os orifícios doendo e um rombo na alma. Como olharia para Genivaldo e Dona Euclídia dali para frente?

Para sua surpresa, Genivaldo, tão entretido estava com a morena, não a vira no swing, e Dona Euclídia... Bem, acordava Alice todas as noites com vigorosas lambidas e dedos ágeis, tratando-a normalmente durante o dia. “Mas isso não está certo”, debatia-se a moça entre preceitos religiosos e morais. Algum tempo depois, a consciência deu seu veredicto: Alice decidiu acabar com todo o sofrimento, pois não podia nem imaginar o que faria o marido se soubesse da sem-vergonhice. Apanhou a arma do pai de Genivaldo, de dentro da cômoda, e atirou na boca do esposo que dormia. Dois tiros para ter certeza.

Hoje vive feliz com Dona Euclídia e seus dotes orais. O rapaz alto vem toda sexta para ajudar com a saia excessivamente curta da moça, e Genivaldo descansa em paz e ignorância sob a figueira do jardim.

Por: Maphalda Rios

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Da Gênese à Revelação

Ciça e Cido eram irmãos inseparáveis. Faziam de tudo juntos, ir a escola, ao parquinho, a missa, à padaria. Eram chamados de Siameses. Aprontavam juntos, brincavam juntos e até saiam para festas, paquerar e conhecer o mundo. Ciça aos 15, passou a namorar Aurélio. Aos 16 Cido encontra Helena e se juntam. O primeiro amor floresce para os dois, a beleza da vida.

Helena era uma garota como outras. Tinha seus caprichos, desejos, gostos e libido. Normal? Sim normal. A natureza segue seu curso como Deus criou. Com Cido não seria diferente, e eles descobriram a vida juntos, num misto de parceria, amizade e atração.

Já Aurélio era diferente. Fiel à crença de seus pais, não deixava de ir ao culto todo sábado. Não comia carne, nem de animais, nem do desejo. Suprimia seus instintos em prol da vida eterna que teria depois de morrer, onde fluiria o leite, o mel. Normal, sim normal. A vida segue como Deus escreveu. Ciça era resistente de início, mas aos poucos cedia. Aos poucos aceitava. Por fim, defendia.

Cido e Ciça lentamente se distanciavam, e distância dói. Doía mais em Cido que em Ciça, pois para ela, o irmão era pecador, pagão e idolatra. Ela aprendera do pastor motivos para rechaçar o irmão. O irmão, ao contrário, ainda a amava como desde o ventre da mãe, não entendia a perseguição.

Cido e Helena se casaram, tiveram filhos. Viajaram pelo mundo, compraram casa, carro, criaram os filhos com liberdade e carinho. Mas Cido, de sofrer de falta da irmã, evoluiu uma gastrite em ulcera, e de ulcera a câncer. Padeceu aos 50, deixando o amor na família e filhos, a união dos descendentes, uma nora grávida de uma promessa de amor eterno pelas gerações.

Ciça e Aurélio se casaram. Tiveram filhos sem métodos anticonceptivos. Eliminaram os "do mundo" de sua convivência. Criaram seus filhos longe dos "do mundo". Tudo isso em nome do deus que seguiam e segundo a regra do pastor, seu enviado. Ciça viveu até os 70. Pode bradar, no púlpito da congregação, em alto e bom tom, que o irmão morrera como pecador aos 50, pois se priva a vida longa aos que não o acreditam. Morreu do mesmo câncer que o irmão, da mesma angustia de não tê-lo por perto: Ele não aceitou a Promessa.

A vida seguiu a quem ficou, que distante cada vez mais se colocavam, cada um a sua maneira de ver o mundo e o além. Na gênese da trajetória dos irmãos siameses, a revelação foi o fim de tudo.

Por Coronel Malaquias

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pensamentos corrosivos

"Me considero o maior traidor do mundo, do umbigo pra baixo. Quem trai do umbigo pra cima é burro, pois trai sua própria consciência".

"Tenho três semelhanças com Jesus Cristo: amo o próximo, amo a liberdade e amo as putas. Jesus amou uma só e eu todas elas".

"Eles entram com o pinto, elas com a vagina. Eu só ofereço os lençois e as bebidas".

(Oscar Maroni, dono do Bahamas, maior centro de entretenimento masculino do país, no programa Pânico na Jovem Pan, 25 de setembro de 2013).

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sexta-Feira 13!!!!

Nesta tão festiva sexta-feira, nosso amigo Jason Voorhees selecionou seus posts favoritos no Corrosivo Coletivo.

Confira a seleção de Voorhees, com direito a comentários e observações!



DEU MEIA NOITE

"Adoro essa história e, inclusive, conta-a aos meus filhos todas as noites, para fazê-los dormir. É tiro e queda para um sono tranquilo e revigorante".

CONVERSAS DE RODÍZIO
" Impossível não sentir fome! Durante a leitura, pode-se sentir o aroma das carnes e seus cortes nobres. Narrativa típica de Reverendo Lezzagon e seu estilo imprevisível".


SÃO CIPRIANO, CAPA DE AÇO
"Eis aqui um conto sério e com o respaldo do grande bruxo dos bruxos. O que seria do mundo sem os misticismos, não é mesmo? Um primor de sabedoria, da primeira à última linha".

PRAGA DE MÃE
"Ah, quantas saudades de minha mãezinha e dos momentos  que passamos em Crystal Lake!! Quem não se deixa tocar por uma história dessas....(emocionado)...é porque nasceu de chocadeira..."

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Canceriano com ascendente Câncer

Amável e dócil, assim é a personalidade do nativo de câncer, que nasce entre 21/6 e 21/7. De humor instável, é regido pela lua que de fases vive. É emotivo, apegado, conselheiro, amigo e fiel. Mas gosta de sacanagem e prazeres, mesmo que platônicos. Abdica de tudo pela família. Apegado à mãe, possui as piores sogras. Não o contrarie, é de guardar mágoas.

Assim, Juvêncio começava todo dia. Lia seu perfil astral, seu mapa, o horóscopo, sempre em busca de encarar o problema com o auxilio das estrelas. Era cristão, espirita, budista e astrólogo. Fazia previsões aos amigos, com base na mandala astral. Ganhou até um baralho de tarô. Era chamado de mago. Era careca, às vezes chamado de Magoo também.

Uma dor no estomago o acometeu. Leu nos livros que Câncer tem propensão a problemas digestivos. Previu que era uma fase e que depois teria uma ascensão enorme na vida como um todo. De sal de fruta passou uns dias a esperar e, quando apertava a dor, uma ou outra simpatia fazia. Consolava.

Três meses depois, ascendeu espiritualmente aos Céus. Ao lado das constelações ficou. Era Câncer, com acendente e mortal Câncer, que no pâncreas não poupou nada até a metástase. Mirou tanto os astros que virou, para a filha pequena, uma estrelinha no céu.

Por Coronel Malaquias

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Cinzenta São Paulo

Era uma manhã nublada em São Paulo. A Faria Lima estava cinzenta, fria. Alfredo passaria por uma entrevista de emprego que mudaria o rumo da sua vida e da sua carreira. Com ele, Bruna, sua namorada.

-Vai dar tudo certo, tenho certeza
-É o que eu espero
Alfredo e Bruna namoravam há três anos, moravam na mesma cidade, tinham a mesma profissão. Entendiam-se em tudo.
-E aí, como foi?
-Deu certo, começo na próxima semana. Preciso arrumar minhas coisas e achar o apartamento.
-Que bom...

Na verdade, não estava nada bom. Bruna não gostou do rompimento de laços, por meses se sentiu sozinha, desolada, com saudades. Não suportou a longitude e rompeu o relacionamento.
-Tem certeza disso?
-Sim, eu tenho.

Anos se passaram, Alfredo mudou de emprego mais duas vezes. Mas, foi numa manhã de setembro de 2013, andando pela Faria Lima, que ele se lembrou daquele dia. Lembrou que, em meio ao cinza, avistou sua então namorada, com roupas neutras, mas com um guarda-chuva da cor do arco-íris, que coloria a cinzenta avenida.

Lembrou que tirou sarro dela pela escolha do acessório e que, com sorriso no rosto e olhar apaixonado, ela disse:

-Alguma coisa tem que colorir essa cidade, que seja o nosso amor.

Por: Clécia Amarantus