sexta-feira, 22 de março de 2013

Vida de capotes


Desde pequeno, aprendi a profissão de “capoteiro” com meu pai. Se bem da verdade, isso era mais um biscate que uma profissão, propriamente dita. Meu velho e eu passávamos os dias andando pelo acostamento da Dutra, pra lá e pra cá. Costumávamos tirar a sorte grande em período de férias, carnaval e outros feriados em que as estradas ficavam cheias e o os motoristas dirigiam com a cabeça cheia de álcool.

Sempre que acontecia algum acidente, estávamos lá. Quando fingíamos que éramos médicos, dava pra ganhar um troco maior. No momento de imobilizar a vítima ou abrir seus bolsos para procurar contatos de parentes, furtávamos celulares, dinheiro, relógio e até cordões de ouro. Claro que, tínhamos que dar no pé o mais rápido possível, antes dos parentes chegarem. Lembro que um dia, o acidentado estava acordado e usava um relógio importado, coisa de bacana. Demos um murro na cabeça dele pra desacordá-lo... mas tudo em nome de um relógio de primeira.

Meu pai se foi, e fiquei fazendo capotes sozinho. Com o tempo, descobri que a Régis Bittencourt era uma excelente pedida, já que o limite de velocidade é maior e os radares são escassos. A Rio Santos também não era nada mal. Em muitos anos de capote, consegui 76 relógios de ouro, 19 mil reais em espécie, 34 pares de brinco, 29 pulseiras, 120 celulares e até algumas trouxinhas de maconha. A vida de capoteiro era tranquila, mas exigia paciência.

Cá estou eu, com a roupa do corpo e recém-saído da prisão, 10 anos guardado junto com as traças. Cá estou eu, atropelado por um carro que dobrou a esquina da delegacia rápido demais e foi embora. Sabia que ninguém apareceria para ajudar, nem um mero capoteiro... quem iria capotar um Judas, liberto da prisão e sem um tostão nos bolsos?

Estava com poucas forças, cheio de sangue, avistei um homem se aproximando de mim. Não sei se era delírio, parecia um homem, parecia um chacal.

- Que quer de mim, um pobre moribundo? Se você é capoteiro, nem vem, de mim não tem o que levar!

Perdi as forças de vez. Minha alma já havia sido capotada.

Por: Papa Lezzagon

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